sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

" Uma Igreja atenta, que recusa a indiferença entre os irmãos, que ama, cuida e protege os seus membros mais frágeis, que não se refugia num universalismo estéril mas que tira a sua força na comunhão e na oração e se abre à missão" frei Danilson Andrade

Uma Proposta de leitura, é a nossa rubrica em que leigos ou consagrados farão uma leitura das mensagens do Papa e ou do nosso Cardeal. Para começar o Frei Danilson Andrade, Ilha Brava, fez nos a leitura da mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2015,  «Fortalecei os vossos corações» (Tg 5,8)!


A mensagem do Papa Francisco para a Quaresma deste ano se insere muito bem e se identifica no estilo do seu pontificado: aberto, uma linguagem simples e prática que aponta uma Igreja que quer – precisa – ser diferente para poder continuar a ser no mundo “a mão que mantém aberta a porta entre Deus e o homem, entre o Céu e a terra”.

O objectivo desta mensagem se espelha claramente nestas frases: “Quando o povo de Deus se converte ao seu  amor, encontra resposta para as questões que a história continuamente nos coloca. E um dos desafios  mais urgentes, sobre o qual me quero deter nesta  Mensagem, é o da globalização da indiferença”. O Papa retoma um tema que tem sido recorrente nos seus discursos: a globalização da indiferença. Globalização da indiferença porque, segundo Francisco, “hoje, esta atitude egoísta de indiferença atingiu uma dimensão mundial tal que podemos falar de uma globalização da indiferença”. Já na Eucaristia que presidiu em Lampedusa em memória dos náufragos que se aventuram no mar, movidos pela busca de melhores condições de vida na Europa e que que encontram a morte, o Papa tinha feito uma comovente homilia, lembrando a todos que não podemos ficar indiferentes diante de tantas tragédias humanas.

A sociedade de hoje, o bem-estar e o comodismo tendem a anestesiar-nos. Toda a Igreja, é convocada, pela profecia, ao grito contra a indiferença. Este grito será ouvido através do empenho de todos os crentes para que o outro não caia no esquecimento, na solidariedade traduzida em gestos práticos de amor, de partilha, de perdão e de oração. De onde vem a força da Igreja? Da Encarnação, demonstração clara do amor de Deus por nós. O Deus de Jesus não é o Deus da indiferença. Ele mesmo se preocupa, sai ao encontro da humanidade ferida e entrega o Seu próprio Filho pela salvação de todo o homem.

Três textos são utilizados para delinear esta convocação de toda a Igreja para esta renovação integral e para este grito contra a indiferença: o primeiro de 1Cor 12,26, dirigido a toda a Igreja. “Se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros”, isto é: quem se deixou envolver pelo seu perdão e pela sua misericórdia, tocado pelo seu amor, partilha esta comunhão de “coisas santas”. O segundo texto é Gn 4,9, dirigido às paróquias e comunidades. “Onde está o teu irmão?” Uma Igreja atenta, que recusa a indiferença entre os irmãos, que ama, cuida e protege os seus membros mais frágeis, que não se refugia num universalismo estéril mas que tira a sua força na comunhão e na oração e se abre à missão. Finalmente, o terceiro texto (Tg 5,8) é o que dá o título à mensagem. É dirigido a cada fiel. Que fazer diante de tantos acontecimentos e sofrimentos humanos que nos fazem sentir impotentes? Primeiro rezar, segundo “podemos levar ajuda, com  gestos de caridade, tanto a quem vive próximo de  nós como a quem está longe, graças aos inúmeros  organismos caritativos da Igreja” e terceiro deixar-se interpelar e converter pela fragilidade do outro.

Um último ponto – e em jeito de curiosidade – a mensagem é datada de 4 de Outubro 2014, dia da festa litúrgica de São Francisco de Assis, o santo pobre que, com a própria vida, no seu tempo, chamou à atenção para o tesouro da Igreja abandonado pela indiferença: os pobres.
Sem dúvidas, estas são propostas actuais e desafiantes. Cabe a nós colocá-las em prática. Boa caminhada quaresmal a todos!

frei Danilson Andrade

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