quinta-feira, 16 de abril de 2015

"Não podemos consentir que os jovens sejam as vítimas da pobreza, porque eles são a esperança de uma sociedade" Sónia Centeio

       Confira nossa conversa com Sónia Centeio da Caritas Diocesana.

 Juventude Diocesana: O que é a Caritas?
Sónia Centeio: A palavra Caritas vem de origem latina que significa caridade, ou seja, amor sobrenatural a Deus e ao próximo.
É um organismo oficial da Igreja Católica destinado á promoção da caridade cristã, da justiça social, dos direitos humanos e á prevenção de qualquer forma de exclusão social.
“A caridade é a via mestra da Doutrina Social da Igreja. As diversas responsabilidades e compromissos por ela delineados derivam da caridade, que é  como ensinou Jesus  a síntese de toda a Lei (cf. Mt 22, 36-40). A caridade dá verdadeira substância à relação pessoal com Deus e com o próximo; é o princípio não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macro-relações como relacionamentos sociais, económicos, políticos. Para a Igreja  instruída pelo Evangelho , a caridade é tudo porque, como ensina S. João (cf. 1 Jo 4, 8.16) e como recordei na minha primeira carta encíclica, « Deus é caridade » (Deus caritas est): da caridade de Deus tudo provém, por ela tudo toma forma, para ela tudo tende. A caridade é o dom maior que Deus concedeu aos homens; é sua promessa e nossa esperança (Papa Bento XVI).”

JD- E o que faz a Caritas?

SC - As acções da Caritas estão vinculadas à categoria solidariedade, ou seja, animar e coordenar a ação social na Diocese; apoiar a criação de serviços paroquiais de ação social e dar-lhes o necessário acompanhamento; promover ações de formação para os agentes, técnicos e voluntários da Caritas, capacitando-os para o seu desempenho tendo em conta as novas formas de pobreza; contribuir para a transformação social, nomeadamente no domínio das relações sociais, dos valores e do ambiente, em ordem ao desenvolvimento solidário; organizar e/ ou coordenar na Diocese, em colaboração com a Caritas Caboverdiana e outras instituições, ações de socorro em caso de calamidade ou urgente necessidade públicas verificadas na área diocesana, no país e no estrageiro; desenvolver ações concretas com vista ao acompanhamento e promoção de pessoas carenciadas; articular com a pastoral de conjunto à nível da Diocese (Artigo 3, nº2 do Estatuto da Caritas Diocesana de Santiago).

 JD- Quais as intervenções actuais da Caritas?  
SC- A Caritas Diocesana de Santiago, foi criada em 2010 e entrou em funcionamento no ano 2012, tem tido nesses primeiros anos a preocupação de organizar a sua estrutura (Órgãos Sociais da Caritas Diocesana e as suas Caritas Paroquiais) através de formações e acompanhamento dos mesmos; coordenar a nível das Paróquias rurais da ilha de Santiago um Programa sobre Segurança Alimentar para as famílias mais vulneráveis (2014 - 2016); coordenar a campanha de apoio as vítimas da erupção vulcânica a nível da Diocese; para além de algumas ações pontuais que demanda da nossa ação concreta.  

JD: Qual é a diferença do voluntariado a que a Caritas propõem?
SC- O trabalho da Caritas traduz-se num trabalho de amor, de reconhecer o outro em mim, propõe um voluntariado que é levado pelo amor ao próximo. Todo o trabalho da Caritas tem como centro a pessoa humana no seu todo, ou seja, a dignidade da pessoa humana.

JD: Como uma pessoa pode ajudar a Caritas?
Podemos ajudar a Caritas de muitas formas, através de gestos concretos da solidariedade, pode ser através de géneros alimentícios, apoios financeiros, um tempo do seu saber fazer, através do voluntariado (por exemplo um aluno que tem dificuldades na escola e que não tem condições financeiras para estar numa explicação,...). Mas também podemos ajudar a Caritas dando o nosso tempo ajudando os mais vulneráveis a recuperar a sua dignidade humana em vários vertentes.

JD - Como a Caritas olha a nossa Diocese e os pedidos dos pobres da nossa Diocese? Que prioridades?
SC - A Caritas que é uma Instituição da Igreja Católica olha a Diocese como aquele que é suporte da sua missão, que se exprime num dos tríplice dever de uma Diocese: anúncio da palavra de Deus, celebração dos Sacramentos e o serviço da Caridade. Perante as solicitações dos pobres a Caritas tem essa missão dentro da Diocese de responder juntamente com a Diocese, através de projectos, programas e outras actividades que ajuda a concretizar esses desafios. A prioridade é sempre para os mais necessitados, não estamos a falar somente dos pobres materialmente mas também de outros tipos de pobreza que a sociedade hoje nos apresenta, e sempre em vista a autonomização das pessoas, por isso a Igreja nos convida a todos a ajudar os outros, sem a “indiferença” como nos alerta o Papa Francisco.

JD- Fala-se hoje muito da pobreza material que é dolorosa mais também há uma certa pobreza espiritual...como as encaram.
SC - Sim, a Caritas como um dos pilares da ação da Igreja encara isso como um desafio a atingir. Hoje vivemos uma certa pobreza espiritual, em relação ao legado da fé que nos foi transmitido por Cristo. Contudo, através das ações concretas ao serviço dos nossos irmãos, a Caritas procura ter em conta o ser humano no seu todo.     

JD    Qual é a actualidade da Doutrina Social da Igreja hoje?
SC- A Doutrina Social da Igreja é sempre actual, porque são documentos dos Papas que nos ajuda a tomar consciência da situação da sociedade em cada tempo. No nosso tempo é a situação da crise que ressoa fortemente nos campos social, económico e político. Seu contorno, sua profundidade e sua extensão nos aponta para um desequilíbrio do vital humano, este ressoa em suas raízes mais profunda das consciências, que aceitam como normal ou inevitável o que não tem nenhuma justificativa ética.

“A desproporção dos indicadores económicos mostra-nos que o preço social pago por causa desta crise é de grandes proporções, conjugando concentração de renda com condições miseráveis de vida e exclusão de grandes parcelas da nossa população. Ao mesmo tempo, a sede voraz do lucro imediato agride também a natureza, hoje num desequilíbrio ecológico comprometedor. Os costumes políticos reinantes persistem na linha de uma política da demagogia, do clientelismo, do oportunismo, da impunidade, com altas taxas de corrupção. Falta transparência na condução das coisas públicas que acaba, não raro, sendo privatizada para saciar os interesses dos que, insensíveis ao bem comum, dele se servem irresponsavelmente e com prepotência.”

“As próprias instituições estão em crise e encontram-se debilitadas ante o abismo existente entre as bases jurídicas da ordem social e política e a realidade social que não incorpora de fato a lei enquanto garantia dos direitos do cidadão.”

Diante dos desafios sócio-económicos e políticos de diversa índole, a Doutrina Social da Igreja busca captar justamente as dimensões éticas dos problemas humanos, identificando as responsabilidades do ser humano e aguçando, a partir da fé, o sentido moral do seu agir. Hoje, necessitamos redescobrir o grande valor que este ensino social nos traz, capaz de iluminar a actividade social, política e económica dos cristãos, esclarecendo os compromissos políticos, discernindo as ideologias, capacitando para a análise de sistemas e situações. Ela é parte integrante do seguimento de Jesus Cristo e, como tal, deve estar integrado tanto na educação católica quanto na catequese, tendo o valor de um instrumento de evangelização de todos em especial dos jovens.

   JD- Há uma renovação do Papa Francisco a propor atenção especial e concreto aos pobres e as periferias...que desafios para a Caritas?
SC- Podemos dizer que o Papa Francisco vem reavivar o que é o dever da Igreja e a sua missão para com os pobres. A Igreja desde a sua origem tem sempre presente os pobres. (cf. Act. 6,1-6)
A Caritas sempre trabalha e preocupa com as periferias por isso não é um desafio actual mas de sempre.

JD-  Os jovens são ao mesmo tempo as vítimas da pobreza também aqueles que podem contribuir para ser protagonistas da mudança... como a Caritas pensa ajudar os jovens a serem construtores de um mundo novo, capaz de olhar e defender os pobres?
SC- Não podemos consentir que os jovens sejam as vítimas da pobreza, porque eles são a esperança de uma sociedade. Algumas vezes os jovens são vítimas do próprio meio em que vive, o que influência os seus comportamentos na sociedade. A Caritas tem como missão a promoção da pessoa humana de uma forma integral. Ela está disposta a ajudar os jovens na formação humana, capacitando-os para responder os desafios da sociedade em constante mudança.   

JD-  Uma palavra aos vários Católicos da Diocese que vivem quotidianamente o interesse pelos pobres e criam um mundo novo!

SC- “Fortalecei os vossos corações” (cf. Tg 5,8). Enraizai os vossos corações no Amor a Deus e aos irmãos, através de gestos concretos de partilha, da Fé e do “Pão”.
Aos jovens, recomendamos os 10 conselhos do Papa Francisco, com destaque para os números:
2) “Ir contra a corrente” - ... Isto fortelece o coração. Não há dificuldades, tribulações, incompreensões que possam nos meter medo se permanecermos unidos a Deus...
8) “Ser protogonista das mudanças”- “ Não fiquem à trás, sejam os protogonistas das mudanças”.


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